sábado, 30 de junho de 2012

"Existe no silêncio tão profunda sabedoria que às vezes ele se transforma na mais perfeita resposta."

- Fernando Pessoa



sexta-feira, 29 de junho de 2012

Tenho de voltar a ler e viver em pensamentos a vida de um outrem qualquer, uma vida nunca vivida, mas semelhante a tantas outras...

domingo, 3 de junho de 2012

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
 
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
 
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

                         - Eugénio de Andrade

sábado, 26 de maio de 2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Filipa tinha um chão,
tinha um chão...
E então ela sabia que os seus pés estavam assentes
Que se algo corresse mal
Ela podia correr e lutar e encontrar o seu plano de chão
Mas o chão de Filipa partiu
E com ele quebrou em cacos o instrumento batedor do peito de Filipa
Porém, muito tempo passou e os cacos se reorganizaram o quanto deu, Filipa ressuscitou quando avistou o Seu Sol.
O Sol de Filipa não é a estrela comum que todos conhecem
mas para ela que ele, que inicialmente estava ora a cima bem distante ora cá em baixo não tão distante, passou a permanecer no alto sempre, para sempre...
E lançou uma fita e Filipa subiu
Mesmo que algumas vezes quase escorregasse conseguiu permanecer junto a ele algum tempo.
Tempo bom? Tempo mau? Certamente Filipa teria de pensar...
Mas tempo de que ela não abdicaria, sim...
Mas a fita começou a romper e Filipa escorregou e na extremidade oposta à dele ela tentava subir, mas a fita rompia e rompia... e os olhos do Sol já não eram de Filipa até que a fita se rompeu de vez.
Ainda assim, ela subiu num banco, mas não conseguia lá chegar e colocou outro acima deste e outro...
E, por vezes, quando ela tentava dar o nó às partes da fita rompida ele tentava ajudá-la, mas num só de repente ela já não via os olhos do seu Sol e o nó não se dava.
Até que um dia Filipa caiu de vez e não mais tentou, não mais tentou apenas subir a fita, pois ele puxara para si o pedaço que lhe restava.
Mas lá caída, sem chão, caída num nada, sem chão, ela ainda suplicava que o seu Sol lançasse de novo a parte da fita que lhe pertencia que ela voltaria a tentar lhe chegar...
Até que num momento de pavor, Filipa se apercebeu que ele tivera queimado a fita que fizera para ela e andava a trabalhar uma outra fita...uma outra fita...com um outo nome, uma outra morada...
Filipa adoeceu naquele chão.
Alguns verdadeiramente humanos tentaram ajudar Filipa a reerguer, mas já nem a ele, o seu de adoração Platónica Sol, ela ouviria....
Talvez Filipa tenha cerrado os olhos e não visto uns olhos com luz que chegassem para a libertar...


Não sejas como Filipa, liberta-te... E esquece quem te quer prender apenas para um dia te largar, assim no chão, sem Chão...

A.C.